28 de setembro de 2007

Sócrates devia pôr o PS a pensar

Quando Blair “conquistou” o Labour, percebeu que não poderia levar a cabo as políticas que entendia necessárias sem antes fazer uma reformulação ideológica interna. O Labour tinha que mudar por dentro antes de se apresentar com outra face ao país. Dito assim, parece simples, mas não é. E não o foi, na época.
Podemos concordar ou discordar de Blair, mas não podemos negar que ele teve a coragem de cortar com a doutrina e com a prática tradicionais do seu partido. Os sindicatos que o digam… O Labour deu, então, lugar ao New Labour.
Mas não vamos (ainda) discutir as mudanças ideológicas que corresponderam a esta mudança de nome (e, já agora, de aspecto, no sentido literal da palavra).
Vamos, isso sim, chamar a atenção para o facto de, em Portugal, NUNCA ter acontecido um processo semelhante. Estados Gerais e Novas Oportunidades que me perdoem, mas… todos sabemos que não corresponderam a um movimento ideológico digno desse nome. Desde logo, foram fenómenos curtos (no tempo), concentrados (no espaço), fechados (a quase todos).
Ferro Rodrigues tentou fazer um pouco diferente, reformulando a Declaração de Princípios e criando os Grupos de Estudos – mas veio o “caso Casa Pia” e, com a prisão do seu principal organizador, o PS meteu uma “licença sem vencimento”…
Quanto às famosas eleições internas, que opuseram Alegre, Soares-filho e Sócrates, a verdade é que, da parte do vencedor, pouco comprometimento ideológico houve. Sócrates afirmava-se socialista, mas… o que é que entendia por ser socialista, além de ser favorável à despenalização do aborto? Dizia ser apologista de uma “esquerda moderna”, mas… o que era isso exactamente, além de apostar na formação e nas tecnologias?
Assim, actualmente, o PS (tenha consciência disso ou não) ainda conquista votos graças à História, ao papel por si desempenhado na História do país. Os eleitores confiam hoje, porque puderam confiar no passado.
Por outro lado, o PS ganha eleições graças à “saturação” que os eleitores atingem relativamente aos governos de direita. Foi assim com Guterres, no pós-cavaquismo; foi assim com Sócrates, no pós-barrosimo/santanismo (neste caso, gozando o PS de uma ajuda extra: o santanismo, precisamente…).
Nenhum destes dois factos é, por si só, negativo. Pelo contrário, são até processos muito naturais. Mas temos que atentar no facto de o discurso eleitoral do PS se basear fundamentalmente em meia dúzia de promessas, a maioria das quais – cumpram-se ou não – nada têm de profundo, de ideologicamente profundo, por muito válidas que sejam. Dê-se o exemplo das aulas de inglês na escola primária – ou lá como se chama agora – para ilustrar. E temos que atentar neste discurso eleitoral, precisamente porque ele é sintoma do vazio que reina no PS. Não vazio de nomes, nem sequer de ideias avulsas, mas vazio de um conjunto sistematizado de ideias, fruto de um corpo axiológico coerente. Assim, as medidas governativas parecem surgir “desgarradas”, soltas, sem união. Qualquer novidade nos surpreende e não nos surpreende, ao mesmo tempo.
Sócrates devia ter-se antecipado à ida para o governo. Talvez não tenha tido tempo – Santana Lopes precipitou os acontecimentos. Mas ainda vai a tempo de pôr o PS a reflectir sobre que valores a social-democracia portuguesa (que está no PS e não no PSD) entende serem válidos, pelo menos, para a segunda década do séc. XXI.

8 comentários:

psergio57 disse...

O que Sócrates menos deseja é pôr o PS a pensar. De qualquer modo, falha de uma qalquer ideia coerente sobre uma abordagem social-democrata aos desafios que se põe ao nosso país, a maioria 'socialista' cerra fileiras em torno do seu líder. Dos históricos, herdeiros da velha tradição democrática e republicana, nem pio. O aparelho tudo controla. Resultado: até o nortista Meneses colhe quando acusa este Governo de conservador e de ter posto a social-democracia na gaveta. Com Sócrates não há lugar para refundações ou renascimentos a partir de uma qualquer matriz ideológica. Apenas uma opção clara de manter o status quo e a defesa do grande capital financeiro e empresarial à custa da agonia da classe média e dos direitos laborais.

samuel disse...

O Sócrates pôr o PS a pensar?
O suicídio "assistido" não é ilegal?
Bem... se for em casa ou na esquina do café, vá lá!...

Anónimo disse...

Mas se a malta do PS pensa-se o sòcrates era o seu lider?

Vasconcelos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vasconcelos disse...

Agora vale tudo, na blogosfera? Até roubar o título a outros blogues?

Anónimo disse...

Parabéns pelo aparecimento da «Margem Esquerda».

Interessante este 'post'.
E também o comentário de psergio57.

Este post foi copiado para o «PSLumiar.blogs.sapo.pt»

Anónimo disse...

Sr. Busilis antes de "pensar" em escrever deveria ter aprendido a dominar, ainda que toscamente, a língua em que escreve.

Srª Margem Esquerda não permita no seu blog pontapés, como o do Sr Busilis, na língua portuguesa.

Anónimo disse...

Cara Ana Rita Ferreira, tomei conhecimento deste blogue pela entrevista que, muito agradavelmente, escutei na rádio; viajava com a minha mulher e, como pessoa de esquerda, achei curiosa a sua posição em relação a Ferro Rodrigues que, penso, está na origem da sua desilusão quanto a José Sócrates.
Eu conheço-o desde há três décadas e digo-lhe que nenhuma das suas atitudes me surpreende - para o bem e para o mal.
Fazer política em Portugal, hoje, é, para meu descontentamento, fazer valer os "não valores", coisa inventada por duas personagens que ainda, como lembrou Sócrates, a direita não conseguiu renovar: Santana/Durão e Portas.
O PS teve, não tenho quaisquer dúvidas, nestes dois/três "players", a vontade "oportuna" e o "jeitinho" do "poder não eleito", a pretensão de serem o seu carrasco; valeu a rigidez das posições e o trabalho militante anónimo, do qual me orgulho.
Não fora a existência de um líder forte e hoje estaríamos a mando de gente que encara a política como uma forma de auto-promoção pessoal, sem princípios e sem valores.
Entendo o gesto de ter entregue o seu cartão, mas todos somos poucos para mudar o que tem de ser mudado; ser opositor "por dentro" é uma forma muito nobre e válida de estar, mesmo que nunca nos acenem com lugares de destaque ou tachos bem remunerados.
Cumprimentos.